O Trio Parada Dura na minha época de menino
Meu vizinho tem uma lojinha onde instala “som” em carro e de vez em quando me “emputeço” com ele. Nos finais de semana logo pela manhã ele costuma testar o serviço feito em alto e bom som e nos ritmos mais bizarros possíveis. Geralmente levanto da cama xingando, jogo coisas pela janela, nada muito sério, afinal vizinho e sogra a gente não escolhe. No último final de semana a história foi a mesma, mas não pude me zangar: acordei aos poucos ao som do Trio Parada Dura.
A boa música tem dessas coisas, nos fazer viajar no tempo e recordar bons e maus momentos. Naquela manhã, ouvir canções que embalaram a minha infância me levaram de volta ao final dos anos 80, quando ainda era um menino numa pequena cidade do interior paulista.
Naquela época, eu me lembro bem, logo cedo o radinho de pilha de minha avó já tocava animadamente música sertaneja enquanto ela lavava roupas. “As Andorinhas” era minha canção preferida, e o rádio tocava pra valer. Os arranjos únicos do acordeon de Mangabinha e a inigualável voz de Barrerito me faziam pular da cama e vir correndo só para ficar bem pertinho do rádio. Lembro-me do cheiro gostoso do café vindo da cozinha e de às vezes ficar sentado por horas na janela da sala tomando aquele gostoso solzinho da manhã. De lá podia observar o movimento da vovó em nosso quintal. Éramos uma familia muito pobre, todos em casa trabalhavam na roça e minha avó lavava roupa para fora além de cuidar da casa e das crianças.
Quem conhece a vida no interior sabe: as colheitas só duravam um semestre (não sei se hoje mudou) e no outro não havia trabalho para ninguém. Como qualquer família sonhávamos com uma vida melhor, mas todo o esforço do trabalho rural só dava mesmo para comer, e olhe lá. Nunca tínhamos roupas novas e nem sequer cadernos para ir á escola, por diversas vezes peguei minha mãe chorando sozinha no quarto, se culpando por não poder nos dar uma vida melhor.
Um dia ganhamos um velho toca-discos de uma tia, foi motivo de muita festa. Não tínhamos discos e nem dinheiro para comprar um, então pegamos emprestado do vizinho o LP “Perdão Senhor”, lançado pelo Trio Parada Dura em 1985, dois anos antes. Durante duas semanas eu ia para a escola e não conseguia me concentrar, tamanha era a vontade de correr para casa e colocar o tal disco para tocar.
Além de “As Andorinhas” (a minha preferida), o LP tinha ainda “Passa Lá” e “Castelo de Sonhos”. Na verdade eu gostava do disco todo e passava os fins de tarde ouvindo-o. Lembro-me do chiado da panela de pressão cozinhando o feijão a “todo vapor” e de minha “vózinha” me ameaçando com o chinelo caso não desligasse aquele toca-discos. No meu aniversário já estava aprendendo a ler e ganhei um livro, era “Meu Pé de Laranja Lima”, um clássico da literatura brasileira. As semelhanças entre minha vidinha e a do garoto Zezé, personagem principal do livro e que também era pobre de dar dó eram muito grande, a única diferença é que Zezé tinha um pé de laranja como amigo e eu tinha a música.
Era um tempo difícil e uma característica dos trabalhadores rurais era e ainda é até hoje essa proximidade com a música sertaneja. Normalmente quem podia levava seu radinho de pilha para a roça, a música amenizava o sofrimento e a dureza daquele trabalho pesado. Nesse mesmo período também estavam em alta Chitãozinho e Xororó, Milionário & José Rico e Léo Canhoto & Robertinho. Os anos se passaram e eu fui crescendo e conhecendo outras canções, mas até hoje fico achando que nunca haverá um grupo ou dupla comparável ao Trio formado por Mangabinha, Barrerito e Creone, com arranjos tão geniais. Em “Castelo de Amor”, por exemplo, são apenas o baixo e o acordeon, mas que dão uma identidade única à canção. Em “Telefone Mudo” o acordeon de Mangabinha fala e o jeito único de cantar do Trio não pode ser imitado, nem mesmo pelos melhores músicos de hoje.
Depois de passar aquela manhã toda ouvindo música de verdade e recordando, decidi duas coisas: não ouvir música nova por uns dias e colocar a memória para funcionar lembrando e escrevendo histórias para o blog. Baixei também alguns discos que não tinha, como o vol. 1 da série “Raizes Sertanejas” do Trio Parada Dura. Encontrei lá no site Saudade da Minha Terra e valeu muito a pena, canções originais remasterizadas. Ah, também desci na casa do vizinho e o agradeci, afinal, acordar ao som de boa moda sertaneja é sempre um grande privilégio.
13 Comentários
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Nossa, quando li este texto, até eu mesma voltei ao passado. “Passa Lá” é uma de minhas canções preferidas do Trio. Também cresci na roça ouvindo sertão raíz, e hoje quando ouço, me lembro de um tempo que não volta mais, um passado que tínhamos a música como parte de nossa vida. Parabéns
hehehe!
Sem sombra de dúvidas… São os caras!
hehehe…
A maior e melhor segunda voz do MUNDO é de Creone…
A voz e afinação inabalável de Barrerito,
e os arranjos “do caralho” de Mangabinha!
Sem citar as composições!
Acho que não veremos algo parecido tão cedo!
Com certeza, fazem parte também da minha história!
Bom demais seu texto Marcão!
Foi muito feliz ao escrevê-lo!
Parabéns e Felicidades!
Abraço!
Ô Barbosa!!! O Texto é do Fabinho Dornelles.
Xará! Cê mata o povo de saudade assim sô!
Bom d+ o texto! Impossível pra quem viveu algo parecido não viajar nas lembraças.
Esses textos especiais, escritos assim com tanto sentimento, nos faz chorar, rir sozinhos, ficar com cara de bobos. Muito bom mesmo, recordei de várias experiências.
Parabéns!
Só uma retificação: Além do baixo e da sanfona, há um violãozinho de naylon fazendo base em “Castelo de amor”, pelo menos na versão que tenho aqui. Sucesso cada vez mais ao Blognejo!!!
Aí sim fomos surpreendidos novamente !!! Pra imitar o ” trio parada dura ” hoje só mesmo os herdeiros ” os parada dura ” Cara como parece, pena que ja não cantam tudo aquilo… Mas são ótimos também.
Abraços, Alex Lima.
Fabinho, vc tem razão, tem mesmo o violão de nylon fazendo base. É que me empolguei ao escrever e esqueci de mencionar, hehehe…
E Alex e Barbosa, esses eram são fodas mesmo. Gostaria de um dia poder vê-los juntos de novo, mas acho que não vai acontecer…
Amigos, abrigado pelos comentários…
Abração…
Pra quem naõ conhece e não sabe a formação do ” os parada dura ” que são os mais parecidos com os originais hoje ta aí o site http://www.osparadadura.com.br inclsive O parrerito é irmão do barrerito ( voz bem parecida ) o creone é o mesmo; e o carlos resendo um ótimo sanfoneiro. Eles são do escritório lá de divinopolis que tem o Gino e geno e o Adair cardoso também.
Abraços, ALex LIma.
Hehehehe Xará!!! Num falei que tinha mesmo. Mas vc não tá errado não, em algumas músicas a simplicidade dos arranjos é tão grande que chega a ser só um baixo e acordeom e em outras só o violão e a sanfona mesmo. Mas sobre o comentário do Alex. Eu já discordo um pouco, acho que o Parrerito que dueta com o Creone no “Os Parada Dura” hoje em dia não canta tão parecido com o saudoso irmão dele Barrerito(O cantor das Andndorinhas). O timbre de voz até lembra, mas para os ouvidos mais exigentes ainda fica faltando. Mas uma coisa é fato o encanto, a magia causada pelas músicas do verdadeiro Trio(Mangabinha, Creone e Barrerito) nunca mais. ÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ SAUDADE!!!!!
Amigos, o TPD é realmente demais, e para quem assim como eu é fã de ACORDEON,
é a melhor fonte que temos dentro da música sertaneja, não encontro palavras
para expressar o quanto sou fã do eterno Trio Parada Dura…
Fábio também os acho insubstituiveis, só disse que existe hoje a opção de se ouvir os parada dura com alguma semelhança…
Inté !!
Belo texto, mesmo esse universo não fazendo parte da minha vida, admiro muito a vida simples no campo, apesar das dificuldades que eu sei que existe, quem teve uma infância ness ambiente e conseguiu ter uma certa ascensão social tem orgulho de dizer que já foi da famosa roça. Quanto ao Trio Parada Dura, não conheço muito o trabalho deles, talvez pela minha idade mas assim que tiver um tempo procurarei Discos na Internet para conhecer melhor esse ilustre Trio que ajudou a escrever de forma significativa a história dá música sertaneja.
Belo texto Marcão… msm que nem ainda era um bebê nesta época é capaz de se emocionar ao ler o que você conta neste texto sobre sua infância e da sua relação com a música. È exatamente a sua forma detalhista e emocionada de escrever que nos faz dar uma passadinha aki no blognejo tdo dia. Abraço
Voltar a infancia é olhar pra dentro de si mesmo. A musica é poderosa nos leva a onde queremos ou onde ela quer.Tenho meus momentos de nostalgia e pode ter certeza sempre acompanhada de uma boa musica como (asa branca) peguei pesado agora)ne? ou (como nossos pais) do grande Belchior que desmente o que falo agora ele diz -o novo sempre vem. E vem mesmo só é preciso saber ouvir. Fiz mal citar nomes que nao sao sertanejo? NO ano de Asa branca, faltava bastante para eu nascer.É só um detalhe.
Fabio sua postagem muito me comoveu vindo do interior conheço bem a vida dificil do sertanejo onde a terra e o seu principal sustento e a musica sertaneja e a sua fiel companheira nos dias chuvosos ou nas manhas frias de inverno .MUSICAS sERTANEJAS E NãO ISSO O QUE NOS EMPURRAM GOELA ABAIXO EM SOM TÃO ALTO COMO SE ISSO OS TORNASSEM MELHOERS OU BONS .BONS MESMO são Milionario eJOSE Rico Trio Parada Dura Leo Canhoto e Robertinho Pedro Bento e Ze da Estrada e assim por diante e quanto aos meus erros de PORTUGUES deixo bem claro sou caipira com muito orgulho