Antes solo que mal acompanhado?

set 30, 11 Antes solo que mal acompanhado?

Cantar sozinho não é mais uma aventura como era há algum tempo atrás. Na verdade hoje em dia é mais fácil trabalhar sozinho do que em dupla. Os cachês são os mesmos, a infra-estrutura é a mesma, mas ao invés de duas cabeças pensantes, reclamantes e com o ego inflado, trabalha-se apenas com uma. Uma constatação, aliás, que chega a ser triste para quem sempre levantou a bandeira do dueto: os maiores hits de 2011 (talvez os únicos grandes hits do ano) foram produzidos por artistas solo. “Amar não é pecado”, “Ai, se eu te pego”, “Balada”, “Não precisa”…

Explosões luansantanísticas à parte, às vezes me pergunto quais são os outros motivos que levaram a esse boom dos artistas solo. Não é possível que seja apenas todo mundo querendo ir na onda do que deu certo. Não consigo aceitar que é só isso. “O Luan explodiu, então eu vou explodir também”. Acho que os motivos são bem mais profundos e ligados às próprias condições e sentimentos das pessoas enquanto seres humanos.

Na verdade não é só na música sertaneja. Bandas dos mais variados segmentos musicais seguem encerrando décadas de história, perdendo membros importantes, ou vendo seus vocalistas sendo seduzidos pelas belezas de uma carreira solo. O que fica claro pra mim é que o ser humano anda pensando mais em si mesmo do que na importância de uma estrutura consolidada, ou da manutenção de um estilo e de uma tradição eterna como a do dueto na música sertaneja.

O fato é que as relações humanas andam cada vez mais deterioradas. Trabalhar em dupla ou em grupo é cada vez mais difícil. “Ah, eu quero decidir por mim mesmo”, “Não quero dividir a grana com ninguém”. “Ah, o cara num faz nada mesmo, eu mereço todos os holofotes”, entre outras frases similares, são as que a meu ver andam povoando com mais intensidade a cabeça dos artistas. Para quê seguir cantando com um cara teoricamente menos talentoso se o mercado hoje aceita numa boa um cantor solo? Por conta disso, creio que os motivos que levam uma pessoa a se tornar um artista solo variam muito mais entre sentimentos negativos do ponto de vista das boas relações humanas do que entre os positivos.

A parte do dinheiro, aliás, já é defendida há tempos por artistas solo consagrados. Enquanto todo mundo trabalha em dupla e tem que dividir o dinheiro por dois, o cantor solo não precisa dividir com ninguém. E não deixa de ser verdade. “Para que dividir o dinheiro se sou eu quem faço todo o trabalho???”. Nesse caso, prevalece o “egoísmo”, o primeiro dos sentimentos negativos da lista de possíveis motivos.

Outro motivo que talvez explique a dominação dos artistas solo é a dificuldade que algumas pessoas tem de ouvir críticas. Quem canta em dupla ou em grupo tem sempre que escutar ou levar algum puxão de orelha do parceiro ou de um membro do grupo. Isso é normal. Aliás, faz parte do dia a dia de uma dupla. Cada um tem que seguir sempre se adaptando ao outro. O problema é que, para algumas pessoas, ouvir e assimilar críticas é uma coisa completamente impensável. “Errar? Eu? Eu não errei, não tenho que mudar nada.” Partindo para a carreira solo, a pessoa que não consegue assimilar e aceitar uma crítica pode simplesmente fingir que é perfeito, afinal o chefe é ele. Quem ousar falar qualquer coisa vai pra rua. Uma ilusão que às vezes facilita, ao mesmo tempo, o desenvolvimento do trabalho e uma queda inevitável num futuro não muito distante. Afinal é o que acontece com quem é incapaz de enxergar os próprios erros. Aqui, prevalece a “arrogância”, também conhecida como falta de humildade, o segundo motivo da lista.

“Para quê dividir as atenções com esse cara se o verdadeiro talento da dupla sou eu?”. Essa “necessidade de aparecer”, o terceiro dos sentimentos negativos, geralmente é tanta que o cara não consegue dividir espaço na foto com mais ninguém a não ser ele mesmo. De certa forma, isso esbarra um pouco no egoísmo explicado acima.

É claro, porém, que não é só através de sentimentos negativos que se explica a explosão do artista solo. Às vezes o cara é realmente talentoso. E não dá para obrigar uma pessoa a fazer o que não quer. Se o cara quer seguir sozinho, tem mais é que fazê-lo mesmo. O problema é a “falta de bom senso”, que pode inclusive ser considerada o quarto dos sentimentos negativos. Não é porque o Luan Santana e o Gusttavo Lima explodiram que o cara também vou explodir. Existe toda uma série de elementos que se unem para favorecer o sucesso deste ou daquele artista em determinada época. A “falta de bom senso” é o que permite àquele coitado que nem sabe direito o que é música simplesmente pegar um milhão do papai ou do titio e investir em si mesmo, porque na cabeça dele e da mamãe ele tem talento e em uma semana ele será o novo Luan Santana. A “falta de bom senso” é o que faz outro cara achar que basta arranhar umas notinhas no violão e cantar mais ou menos e pronto. Qualquer barzinho vai querer o cara cantando lá.

A “preguiça”, o quinto e último dessa listinha de possíveis motivos para o crescimento do segmento solo, é o que faz com que o cara desista de uma parceria porque não aceita dividir tarefas. Ou porque se acha importante demais pra isso ou porque simplesmente não quer receber ordens. Quer é cantar e pronto. Acontece que quando não se tem dinheiro pra investir, é preciso correr atrás das coisas sozinho. Numa dupla, por exemplo, ou correm os dois ou simplesmente não funciona. A divisão de tarefas é importante nesse ponto. O problema é quando a divisão de tarefas inclui 85% das atividades para uma pessoa e 15% para a outra, que ao invés de perceber a total desproporção simplesmente se acostuma à tranquilidade de não fazer nada e acha que essa fata de proporção é correta. Mas uma hora cansa. Quando o responsável pelos 85% das atividades simplesmente cai em si e cansa de ser um empregado, o cara dos 15% acaba ouvindo umas verdades. Mas como ele, por conta da “preguiça”, acha que o correto é ele ficar mesmo com 15% ou menos, a coisa desanda. E ele mesmo decide que vai seguir sozinho. Mas só para explicar melhor, a “preguiça” está presente somente numa minoria de cantores que decidem seguir sozinhos. Só nos que abarcam também a “arrogância” e a “falta de bom senso”, afinal é evidente que o cara que quer cantar sozinho vai ter que tomar conta de 100% das atividades relacionadas à sua careira, pelo menos enquanto não arruma ninguém pra enfiar dinheiro. Incrível como tem gente que simplesmente não enxerga isso e acha que ao cantar sozinho não vai ter que fazer mais nada.

Conversando recentemente com um dos ótimos artistas solo aqui da região, o Nando Morenno, ouvi uma frase interessante. “Antes solo que mal acompanhado”. Em alguns casos, como o do próprio Nando Morenno, esta frase é de fato bastante válida. O problema é quando o cara que a coloca como lema de vida realmente acredita que o defeito está nos outros e não nele mesmo. O que falta é humildade para às vezes sentar e discutir os problemas ao invés de simplesmente sair cantando sozinho ao primeiro sinal de problema numa parceria.

O mercado solo está em alta. E existem dezenas de artistas realmente muito bons e que justificam esse sucesso. O problema são os milhares de oportunistas que acabam vindo na onda deles, e que não percebem que o que os motiva não é o talento (que quase sempre inexiste), mas sim, como enumerei acima, o “egoísmo”, a “arrogância”, a “necessidade de aparecer”, a “falta de bom senso” e a “preguiça”. Isso é o que proporciona o surgimento de taaaaaaantos artistas solo que obviamente não passam de aventureiros. Pessoas que às vezes acham que estão “desperdiçados” numa dupla ou grupo, mas que não percebem que são eles as verdadeiras “pedrinhas no sapato”. Não conseguem entender que numa parceria em dupla ou grupo é preciso respeitar o espaço dos outros e não apenas o seu próprio. Ou rapazes que por acaso tocam um violão e são bonitinhos e que apenas por isso atraem a atenção de um empresário cheio da grana. O buraco é bem mais embaixo.

16 Comentários

  1. Bom texto Marcão! Muito bom mesmo.

  2. Jhones de Souza /

    Para se formar uma boa dupla, vai além de bom dueto, é preciso afinidade, algo é comum entre irmãos ou grandes amigos, como exemplos Zezé & Luciano, Leandro & Leonardo, João Paulo & Daniel, Bruno & Marrone entre outros. Hoje ainda se ver mais duplas do que cantores solos, mas o problema maior é que se formam duplas com pessoas que não se conhecem bem, só porque cantam direitinho, e aí os sentimentos negativos que foi relatado no texto acima tomam conta e tudo desanda. Mas sobre os exemplos de cantores solos citados acima faço uma anlise:
    Paula Fernandes, As mulheres são mais dependentes e por falta de tradição na música sertaneja, pois não conheço nehuma dupla feminina famosa.
    Luan Santana, um fenomeno!
    Michel Teló, pelo fato do sucesso do tradição ser passageiro.
    Gustavo Lima, discordando da materia, segue os passos do Luan Santana.

    • Gustavo lima foi um oportunista, pq o cara rodou bastane fora do sertanejo tentando fazer sucesso(não vejo problema nisso) más ele não é um artista, e sim um “Musico Produto”…em outras palavras “Uma Puta Musicista”…q se prostitui tocando oq da dinheiro.

      Luan Santana não é fenomeno…estorou pq o empresario dele investiu mais de 3milhoes no moleque pra dar a arrancada, cantando musica descartavel digna de sorocaba,ja q na epoca a moda era FIUK, Restat, Cine, Malhão…foi mais um produto pra essa fatia do mercado, outro q nao é Sertanejo de Fabrica. A prova disso é q o publico dele não compra cds, nem viveram essa fase, é molecada…eles baixam da internet e a grande maioria não frequenta show, quem lota show do Luan é a galera q vai pela primeira vez e nunca mais.

      Já Paula Fernandes sim é fenomeno, sem tanto investimento como Luan, ela vende discos e lota publico pelo talento(musical e beleza)…E Michel Teló apesar da linha que ele segue hj, ele marcou história com o tradição e fora q ele é um Baita Gaitero bom, o cara manja de musica como poucos da cena.

      • Daniel Pinheiro /

        Pera ai, Vamos ver se eu entendi:

        Michel Teló faz sucesso porque é um Baita Gaiteiro, Certo Concordo, mas Ai você se perde em seus Critérios porque Gusttavo Lima simplesmente Destrói Tocando Violão, Viola e Guitarra.

        • “Destrói” ??? Os ouvidos se for…

          O Gusttavo Lima toca apenas o “arroz com feijão” nos instrumentos, o cara não tem virtuosidade, ele é igual o Mateus do J&M…conhece uma escala pentatonica e sabe tirar uns riffzinho q é moda de rockeiro.

          No sertanejo dessa nova geração os caras q são virtuosos e pode-se falar q realmente destroem são(victor chaves, hudson cadorini, João Carreiro, Michel Teló, e acho q dessa fase parou aqui.) … qualquer outro nome que fique firulando com instrumento no palco, não tem capacidade de criação, arranjo e produção, pq simplesmente não estudaram pra isso.

  3. NADA COMO UMA BOA DUPLA SERTANEJA!!! Sem mais….

  4. CIDA MATTOS /

    aprecio o trabalho do michel telo como solo. e nada mais,.

  5. Fabio Roque /

    Bom demais esse texto!
    Eu já tive uma pá de parceiros, mas nem por isso desisto de cantar junto. Acho que o sertanejo foi feito pra ser cantado em dueto.
    Mas pelo fato de ser dificil achar um parceiro com todos os pré-requisitos, aqueles que seguem solo tem lá as suas razões.
    Então o que manda na hora de decidir que caminho seguir é o bom senso. Aí cês vê aí! Hehehehe

  6. Ei Marcão!
    Mais um grande texto meu velho, parabéns, coisa linda, concordei demais com a parte que falastes da dificuldade de se relacionar em sociedade, em conjunto, é um dos pilares da própria sociedade que vem desabando, o mundo vem se tornando cada vez mais individualista e sem dúvidas isso gera grandes reflexos na música!

  7. ótima matéria Marcão, em breve meu novo CD, o pessoal pode acompanhar no meu site http://www.rodrigoarantes.com

    Abraços sertanejos Rodrigo Arantes

  8. Boré Loureiro /

    Ai, ai minha ferida Marcão!!Tava quase sarando!!

  9. GUSTTAVO LIMA E MICHEL TELÓ ARREBENTAM SOZINHOS MAIS NADA COMO UM DUPLA COMO JORGE E MATEUS VITOR E LEO Q ARREBENTAM TBM!

  10. Sinceramente eu prefiro de todos – Paula Fernandes, ela transpira SUCESSO! Vocalmente nota 10, beleza nem se fala! Enfim o mercado musical precisa de artistas assim! Não de artistas que começam no interior, depende das pequenas rádios do interior, porque as grandes cobram seus 40, 50 mil reais para executarem as músicas e depois? As pequenas emissoras promovem esses artistas, cidade menores tbém! Depois? esquecem as origens! Esquecem de tudo! claro que na TV eles falam que lembra! mais liga no escritorio para saber valores? 100 mil, 200 mil! Desculpa senhor, mas não temos data! Isso tem que acabar! Afinal o que as rádios do interior tem de diferente das grandes REDES? tanto de TV como de Rádio? Nada! Apenas o tal do poder! esses cantores Luan, Michel! precisam ser parceiros de todas as rádios!

  11. Tem muito nego separando dupla por ego mesmo, pela ganância e todos os motivos citados ai em cima..

    Hoje eu canto solo, mas eu me vi do outro lado… sempre fiz primeira voz e tive duplas. Nnao cheguei a gravar com nenhuma e a última (Guto & Alex) foi a mais promissora da minha breve carreira!! O problema q eu enfrentei, não foi achar um parceiro com nível suficiente e dedicação e todos os requisitos pra formar uma parceria decente, que funcionasse como parceria mesmo!

    A meu ver, pra uma dupla funcionar. Os dois tem que andar em perfeita sintonia, o trabalho tem q ser divido por igual, as ideias e propostas serem as mesmas… a pior coisa q eu enfrentei foi me dedicar 100% enquanto meus parceiros não se dedicavam 20% nem ensaiar nego queria e tive parceiro que o domingo era sagrado pra não fazer nada ahuahauh…

    Experiências ruins a parte, aprendi muito com isso e a idade vem batendo e a gente tem q correr atrás do que é melhor pra gente, pra mim o melhor foi me dedicar a minha carreira!!

    Parabéns Marcão, sou seu fã!!! Vc sabe que acompanho sempre o Blog.. E adoro esses tipos de post!
    Sucesso vc já é Marcão.

    Abração e tamo junto!!

  12. muito bom o texto,acho válido cantores solos estando fazendo sucesso no sertanejo,porém acredito que a tradição não pode fugir muito.sertanejo sempre foi feito com duplas e devemos levantar sempre essa bandeira!!!

  13. Eu não aguento mais escutar Paula Fernandes. Não que eu escutasse Paula Fernandes antes, gostava da “Pássaro de Fogo” e só. Só que agora ela é onipresente, você escuta mesmo sem querer, os outros fazem o serviço no seu lugar. O pior é que mesmo que você curta, sei lá, uluzudum da Africá Central, já deve ter uma versão em uluzudum de “Eu quero ser pra você”.

    Acho Paulo Fernades muito chato porque tudo ali é muito calculado para estar certinho. Até o babadinho com o Roberto Carlos tem um quê de cálculo. Paula Fernades é como uma Marisa Monte. É tanta engenharia envolvida que assistir um show dela é tão emocionante quanto assistir a construção de uma ponte.

    Fora que andam dizendo por aí que ela é um porre de pessoa. Em tempos de Twitter e Facebook essas histórias correm e se multiplicam. Dizem também, os defensores, que ela é bipolar e toma uns antidepressivos. Eu não quero nem saber, mas acho essa questão muito chata. Até aí nenhuma novidade, não é mesmo?

    A única coisa legal que tem na Paula Fernandes ela não explora, que é aquela história de que ela era namorada de Victor, da dupla com o Leo. Segundo consta no Santuário da Fofoca Universal a música “Meu eu em você”, um jovem Victor, enamorado de uma mais jovem ainda Paula, fez para sua amada como prova de amor.

    Mas enfim, não estou dizendo que o DVD de Paula Fernandes seja ruim. Apenas estou exercendo o direito constitucional da livre expressão. E isso inclui a liberdade de dar palpites. E eu tenho um palpite para dar sobre Paula Fernandes – e Marisa Monte também, chama ela – o que falta para elas sabe o que é? Uma calça jeans encardida e um tanque de lavar roupas.

    Tenho certeza que o tanque vai olhar dentro dos olhos das duas e vai dizer: “Vai se entregar pra mim / pela primeira vez…”

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