TEXTO DO LEITOR – O cenário sertanejo gaúcho

mai 26, 11 TEXTO DO LEITOR – O cenário sertanejo gaúcho

Sou frequentemente cobrado por não falar no Blognejo dos artistas e da música sertaneja do Rio Grande do Sul. É uma reclamação dos próprios artistas gaúchos e do público a distância que o estado aparentemente mantém da música sertaneja. Eu vinha adiando falar desse tema justamente porque não conhecia muito bem os detalhes que envolviam a música sertaneja naquele estado. Mas ao que parece um de nossos leitores, o Thimoty Nery, se cansou de esperar meu texto e resolveu ele mesmo escrever um, hehehe. E não é que ficou muito bom!!! Ele soube dissertar muito bem sobre os aspectos da música sertaneja no Rio Grande do Sul e ainda levantou uma grande polêmica: uma das principais rádios do estado tem se aproveitado de uma concessão pública para promover uma única dupla da qual é detentora de parte dos direitos financeiros. A referida rádio simplesmente deixou de tocar as canções de TODOS os outros artistas do Estado e resolveu tocar apenas os artistas de fora e a única dupla da qual é sócia. Polêmica no ar… Acompanhem detalhes no texto abaixo.

Escrevo esse texto com o objetivo de apresentar o cenário do Sertanejo aqui no nosso Estado.

O Rio Grande do Sul é reconhecidamente (inclusive por nós gaúchos!) um lugar onde as novidades, modas, etc, chegam sempre atrasadas. Até pouco mais de dois anos atrás, não havia baladas sertanejas por aqui. O sertanejo estava presente nas rádios (poucas) mas os shows se resumiam a episódios isolados (feiras, aniversários de municípios ou de rádios, por exemplo, que contavam com grandes artistas.

Com o “boom” do falecido Sertanejo Universitário (termo ainda MUITO utilizado aqui) ocorreu o fenômeno da proliferação de duplas/bandas, casas noturnas e rádios voltados ao segmento. Isso com no mínimo 1 ano de atraso em relação ao resto do Brasil.

Atualmente temos no cenário gaúcho os seguintes artistas com destaque: Jonathan & Matheus, Dani Seiva & Luciano, Cairon & Gustavo, Lucas & Felipe, Sandro & Cícero e Pedrinho & Léo. Todas as duplas citadas possuem um padrão de qualidade muito bacana, com estilos próprios e estratégias de mercado também distintas. Algumas têm CD de carreira outras não. Existem as que são mais pop, outras mais no batidão sertanejo, etc.

A dupla Jonathan & Matheus utiliza o rótulo “Bailão Sertanejo”, pois apresenta um repertório que empolga e faz a galera dançar, apostando alto no batidão sertanejo. É show com energia, alto astral e qualidade, tanto vocal quanto instrumental. A agenda mensal conta com média de 25 shows desde maio de 2010. A dupla tem um CD gravado e seu DVD será realizado dia 10 de setembro de 2011 na W Hall, em Gravataí, cidade natal da dupla.

Dani Seiva & Luciano são uma dupla formada por ex-integrantes de bandas de pop rock. Ainda como “Radiopop” fizeram parte por aproximadamente um ano do programa Raul Gil, estando semanalmente na televisão. Ao regressarem para o Rio Grande do Sul, se aproximaram do sertanejo, com a veia pop. Não se nota investimento para consolidar a dupla, como CD ou DVD. No meio artístico se comenta que estariam apenas pelo momento, fazendo shows, etc, mas sem o objetivo de eternizar a história.

Cairon & Gustavo podem se considerar a dupla que iniciou o movimento sertanejo no RS. No entanto, demoraram um tempo para entrar na nova linguagem, tendo apostado no início no sertanejo mais tradicional. O primeiro CD da dupla deixa clara a decisão. Após o “boom” do “sertanejo universitário”, iniciaram a aproximação com a nova roupagem, mas acabaram perdendo um pouco de espaço. A banda que acompanha é muito boa. A dupla é vista como a melhor afinação, mas o show ainda parece um pouco “morno”.

Lucas & Felipe formam uma dupla que talvez tenha a melhor banda acompanhante no cenário gaúcho (tecnicamente falando!). As vozes ainda estão em evolução, sendo que a primeira voz ainda soa um pouco infantil e o “segundeiro” fica mais escondido. Quem acompanha desde o início testemunha uma melhora em vários quesitos. Utilizam programações nos shows. Fazem um estilo “Luan Santana”, no sentido de serem novos e bem apresentáveis, situação confirmada pela forte presença “teen feminina” como público.

Sandro & Cícero e Pedrinho & Léo são duas duplas do Interior do Rio Grande do Sul, com trabalhos elogiados nas casas noturnas em que se apresentam. Forte presença de palco e repertório que agrada o público são destaques comentados.

Após essa exposição do mercado gaúcho, aproveito pra salientar uma situação que tem me incomodado bastante: uma emissora de rádio muito forte, principalmente na região metropolitana de Porto Alegre, mas que tem alcance em parte do interior também, faz a opção de tocar apenas uma dupla local na programação. As demais duplas locais, que rodam em diversas outras emissoras, são ignoradas, apesar de inúmeros pedidos de seus ouvintes.

Se fosse apenas uma opção do programador, talvez fosse aceitável. No entanto, é de conhecimento público e notório que há relação comercial entre a rádio e a dupla em questão. Há gerência da carreira, agenda, etc, dentro da Rádio.

Acredito que não seja crime (desconheço o tema), mas certamente é completamente imoral, ferindo todo e qualquer princípio ético. Que toquem 10 vezes as músicas da dupla em questão, mas toquem 1 vez pelo menos intercalado as músicas das demais duplas que fazem parte do cenário sertanejo local.

Exponho o fato por ser algo completamente novo para alguém que há mais de 12 anos está no mercado musical aqui no RS. Eu já tinha visto rádios apoiarem, terem até mesmo porcentagem em sociedades de bandas por aqui, mas nunca de colocar em prática um “monopólio” de uma concessão pública em proveito próprio, sufocando os demais artistas locais.

Não é de conhecimento universal, mas rádio e tv são concessões públicas, tendo prazos de validade inclusive. O Estado permite que grupos empresariais utilizem frequências disponíveis e limitadas para fins comerciais. No entanto, deveria haver um certo comprometimento “social” por parte dos empresários, respeitando limites morais e éticos. O “jabá” por exemplo é prova da falta de vergonha na cara. Mas não só dos donos de rádios e tvs, mas também dos artistas, empresários dos artistas, público e principalmente governantes que fecham os olhos para tão delicada situação.

No meu ponto de vista, é inadmissível o Estado conceder o direito de explorar o sistema de rádio e televisão e o empresário cometer o ato imoral de, além de empresariar artistas (que dependem MUITO da exposição na mídia), vetar artistas “concorrentes”, sufocando a produção cultural de determinada região e multiplicando seus ganhos com isso.

Com o tempo pode ser que a história se encarregue de fazer justiça. Enquanto isso, vamos lutando com as forças que temos!

Autor Convidado: Timothy Halem Nery – Funcionário Público, músico e produtor executivo de um dos artistas citados neste texto.

21 Comentários

  1. Fábio Roque /

    Bacana o texto!
    De vez em quando eu penso em participar dessa coluna.
    Até tenho boas idéias, mas o dom de escrever…

  2. Isso Daí, legal sabe que tem várias duplas também no sul que estão trabalhando forte.

    Abraço.

  3. Bom Marcão
    O Thimoty resumiu em algumas palavras exatamente o cenário atual do RS no sertanejo, que inclusive eu e você já tínhamos conversado há algum tempo.
    A situação é complicada, atraso, monopólio, corporativismo, mas vou aplaudir com louvor as iniciativas, do autor e do blognejo, como sempre inovando.
    Ainda bem que possuímos pessoas engajadas para mudar a situação, cresce assim o segmento no RS.
    Grande abraço e parabéns!

  4. Thiago Elias /

    Bom dia! Bela volta do TEXTO DO LEITOR.
    Parabens demais ao pessoal do Blognejo e em especial ao Timothy Halem Nery ! Informação de qualidade sempre será bem-vinda aos meus ouvidos.

    Conheço algumas das duplas citadas. E a descrição feita no texto é muito fiel ao que conheço de cada uma realmente.

    Agora, quanto a essa rádio aí.. é uma grande brincadeira, né não? Deveriamos reunir provas desse tipo de coisa e formalizar denúnia. Talvez assim conseguissemos diminuir ao menos um pouco a “pilantragem” que predomina na grande maioria das rádios do nosso país.

    Desanima viu.. de verdade!
    Abrax.
    @thiagoelias_

  5. Fabrício Ramos /

    Amigo Marcão!
    Parabéns por abrir espaço para um texto que apresenta o cenário musical gaúcho para o restante do país.
    Aos demais amigos leitores, atenção para as duplas Pedrinho & Léo e Sandro & Cícero…o crescimento de ambos é sensacional, vocês ainda ouvirão falar muito deles.

    Abraços

  6. Timothy Nery /

    Galera

    É com grande satisfação que vejo esse texto publicado no Blognejo!

    Espero realmente estar contribuindo de alguma forma para o crescimento e melhoria do segmento sertanejo.

    Um grande abraço a todos!

  7. Matheus /

    É bom ver o sertanejo crescendo. Mas é fácil notar uma grande falta de conhecimento do povo gaucho com o estilo.
    As duplas nada mais são do que “interesseiros” no tal “boom” que foi descrito no texto. Não estou julgando ninguém, mas é no mínimo feio ver essas duplinhas se fazerem de sertanejos para fazerem sucesso.
    O fato é que a maioria do tal Sertanejo Universitário só faz feio.

  8. Leandro /

    Sou músico e conheço bem o trabalho das dulas acima citadas . Acredito que as bandas acompanhantes de Pedrinho e Léo e Sandro e Cícero (duplas de Santa Maria-RS) apresentam ótimos arranjos,bom gosto e nivel técnico superior em relação as outras duplas citadas,que também são de grande qualidade. Acho que o amigo que escreveu o texto deveria procurar conheçer um pouco mais sobre o assunto.

  9. Timothy Nery /

    Leandro

    Infelizmente não tive oportunidade de acompanhar os shows das dupla Pedrinho e Leo e Sandro e Cícero na íntegra, mas por ter conhecimento do trabalho e resultados apresentei as duas entre as TOPs do RS. É um reconhecimento, mesmo sem conhecer mais detalhadamente.

    A dupla Pedrinho e Leo cheguei a dividir palco na Farms Porto Alegre, e acompanhei 30 minutos do show.

    Na minha opinião, tecnicamente, a banda que eu vi (um ano atrás) não era superior as demais como você afirma. Mas tinha boa qualidade também.

    Opinião é algo sempre relativo, pois é subjetivo e pessoal não esqueça disso.

  10. Timothy Nery /

    Matheus

    Inicialmente destaco que com certeza o “boom” foi o motivador para o surgimento de inúmeras duplas não só no RS como em TODO o Brasil. Fato inegável.

    Não sei em que sentido se refere quando fala que o povo gaúcho não tem conhecimento sobre o estilo.

    As duplas não “se fazem” de sertanejo, apenas trabalham num segmento que leva o rótulo de “sertanejo”. A música sertaneja, hoje mais do que nunca, carrega um rótulo muito mais do que carga cultural, etc…todos nós sabemos disso.

    Mas acredito que o trabalho das duplas citadas tem MUITA qualidade, e com certeza ajudam de uma forma ou de outra na divulgação do segmento sertanejo.

  11. Timothy Nery /

    Matheus

    Com certeza é inegável que o “boom” é o responsável pelo surgimento de inúmeras duplas, não só no RS como em TODO o Brasil.

    Não entendo a que se refere quando afirma que o povo gaúcho tem falta de conhecimento sobre o sertanejo.

    As duplas citadas não “se fazem” de sertanejas. Elas são duplas que estão inseridas, queira o leitor ou não, no segmento sertanejo.

    Mais, tenho certeza que as duplas citadas ajudam, e muito, na divulgação e perpetuação do segmento sertanejo!

  12. Matheus /

    Timothy Nery.

    Tenho uma grande afinidade com o Rio Grande do Sul. Meu pai é gaúcho e minha mãe goiana mas moro desde pequeno no Mato Grosso. Sou gremista e espero que você não seja colorado (hehehe).

    Mas brincadeiras a parte, eu aprendi a gostar do sertanejo desde pequeno e tive uma grande influência do povo goiano e matogrossense, aqui eu posso dizer com a maior certeza do mundo, nós respiramos e vivemos sertanejo.
    Eu admiro o sertanejo universitário, mas acho que a qualidade é muito baixa. Eu costumo gostar de não só ouvir a música mas de sentir que a dupla canta o que gosta e vive o que canta. Acho que é válido essas novas duplas tentarem o sucesso pelo caminho mais fácil, mais fica chato essas duplas de momento. Por exemplo: Se a moda for o Rebolation às duplas tocam um axé, se a moda for Sou Foda, as duplas elas misturam com funk, se a moda é o Hit Você, Você do Pânico, as duplas tocam isso.
    É meio estranho, falando essas coisas me sinto contra o movimento “universitário” do sertanejo, que apesar de elevar o nome do estilo, não tem nenhum ideal, os artistas simplesmente tocam qualquer coisa. A diversidade ajuda, mas quando é demais às vezes estraga também.

    Mas voltando ao assunto do Rio Grande, acho que o povo em si não aceitou muito bem o estilo, tem tudo pra crescer concerteza, mas enquanto isso, à meu ver, falta mais identificação por parte das duplas.
    Lembrando que isso tudo é pelo fato do meu gosto talvez ser diferente dos demais, mas como aqui é um blog, acho importante compartilhar minha opinião, afinal essa é a finalidade do blognejo não é?

  13. Concerteza, temos grandes artistas no RS.
    Merecem mais reconhecimento..
    O que depender da DTMIDIA estaremos em busca de grandes parcerias no estado.

    Texto, muito inteligente e bem escrito!

  14. jaquisson /

    que foto gay a do Lucas e Felipe! rsrsrss
    brincadeira gente!

  15. Jhonatan & Mateus, e Cairon & Gustavo são muito bons mesmo…
    Esqueceu de citar outras duplas, que eu conheço principalmente da serra gaúcha e qualificadíssimas, mas não dá pra incluir todas também né. Hehe. Rodeio drive era uma banda ótima também, agora não sei como está. Agora quanto a falar que as modas chegam aqui atrasadas, não concordo, citando exemplos de pop/reggae, quando já não aguentávamos mais ouvir papas da língua, claus e vanessa, armandinho e etc… Após um tempo estouraram no brasil inteiro. Assim, como eu acho que as casas countrys no RS, só não se expandiram antes por conta dos bailões de vanera que sempre fizeram e fazem sucesso, hoje em dia ambos tem espaço, e por vezes até se misturam, e comparando a algumas cidades de Santa catarina que conheço, a cultura e o conhecimento no RS sobre o sertanejo é bem maior, e não só por estar na moda. Tanto é que um negócio bem rentável no RS é abrir um local só de balada sertaneja, é público e sucesso garantido. No mais, parabén pela matéria, e queria saber o nome da rádio e da dupla envolvida nessa maracutaia, até imagino já, mas não tenho certeza… E é sempre bom ver um post assim, daria pra fazer um por semana com outros pontos do brasil onde o sertanejo se torna cada vez mais forte, mesmo não sendo praças tradicionais da cena sertaneja.

  16. Alex Lima /

    É meu caro, esse fato que acontece na rádio aí acontece bem mais freqüentemente do que parece. Em BH acontece isso também. Mas agora é curioso como em grandes capitais tem duplas que naõ chegam aqui em SP e que vivem bem, fazem ja até um sucesso bacana regional e se vive bem com essa grana.

  17. Muito legal o texto. Só faltou acrescentar que Sandro & Cícero é disparado a melhor dupla do Rio Grande, sucesso garantido nas melhores casas do gênero no Estado, inclusive no Planeta Atlântida 2011 tiveram rasgados elogios da crítica sobe o show apresentado no PALCO FARMS,sendo que no mesmo horário tocava no palco principal NANDO REIS e muita gente preferiu assistir a dupla, que o show do artista renomado.

  18. Timothy Nery /

    Renato

    Você deve saber que o Palco Farms do Planeta Atlântida teve as atrações convidadas justamente pela produtora de Sandro e Cícero juntamente com a Farms, numa panela pra lá de conhecida…hehe….

    Mas tenho certeza que o trabalho dos meninos tem qualidade. Não sei se a ponto de ser “disparada” melhor do que as demais, aliás, duvido muito disso.

    Acredito que tenhamos 6 duplas de muito boa qualidade!

  19. Timothy Nery /

    Matheus

    Concordo contigo!

    Sempre que artistas entram de cabeça nos “modismos” fica perigoso!

    Aqui no RS tivemos o “Tchê Music”…no início foi bem bacana…depois de algum tempo começaram a tocar qualquer “merda”, com o perdão da palavra…

    Final da história? Hoje os grupos estão voltando no tempo..resgatando um pouco do que ficou pra trás…

    São ciclos, necessários para a renovação e até mesmo seleção do “mercado”…

    Mas pode ter uma certeza: algumas das duplas citadas levam MUITO a sério o trabalho, e tem o objetivo de alcançar o Brasil com sua música!

    Abração TRICOLOR!!!

  20. super show esse site amei minha sala de aula esta trabalhando sobre a historia da musica sertanaja no rio grande do sul e amei o site ajudou muito. nao há muitos sites que comentam sobre musica sertanaja no rio grande do sul… entao ameii… bjj ai genta quem quiser me seguir no twitter @may_tainara !!!

  21. Adilson Marlyn /

    Grande Timothy, falou tudo meu bruxo, não sobrou nada pra mim, mas é assim mesmo irmão, sempre foi assim e infelizmente acho que sempre será, quem não tem patrocinio, não se encosta em alguma empresa tem que correr mil vezes atrás.
    Ainda bem que o Marcão publicou teu texto,pelo menos está registrado.
    Parabéns meu Bruxo e parabéns Marcão.

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