REVIEW – Chitãozinho & Xororó – 40 Anos Sinfônico
Quando eu realizei a cobertura da gravação deste DVD, fiz uma pergunta para a dupla e acabei levando uma catracada monumental. Na ocasião, eu perguntei se mesmo depois de 40 anos de absoluta constância e do respeito da classe musical em geral será que ainda faltava para Chitãozinho & Xororó provarem alguma coisa? O Chitãozinho disse que eles não queriam provar coisa nenhuma a ninguém. Apenas fazer a música que eles adoravam e bla bla bla bla, aquele papinho político de artista de sempre. Pois desculpe discordar, caro Chitãozinho, este DVD nada mais é que a demonstração de uma intenção clarividente da dupla de provar que está acima dos padrões da música sertaneja e de tudo o que ela se tornou depois de anos de mutação e/ou evolução, dependendo da forma como se olha.
Último de uma série de 3 discos concebidos em comemoração aos 40 anos de carreira, o disco “Sinfônico” é o mais bem acabado, o com maior riqueza de detalhes, e feito para um público “não sertanejo” antes de qualquer coisa. Um disco concebido para apresentar a um público “preconceituoso”, nas palavras do próprio Maestro João Carlos Martins, um estilo musical que representa a essência do povo brasileiro.
O disco “Sinfônico” conta com a produção visual da O2 filmes, de propriedade do renomado diretor Fernando Meirelles. Consiste em um documentário sobre a dupla e sobre o disco alternado com as músicas gravadas durante uma apresentação na Sala São Paulo em conjunto com Orquestra Bachiana Filarmônica do Maestro João Carlos Martins, que rege apenas 5 das 20 músicas do disco, e a participação de alguns grandes nomes da MPB.
A intenção da “linguagem cinematográfica” acabou se mostrando de fato apenas na parte do “documentário”, que na verdade é um apanhado de imagens feitas durante todo o período de produção do disco, inclusive pela própria família, e depois editadas para o preto e branco. No show propriamente dito não há nada de “cinematográfico”. Aparentemente houve certa preguiça por parte da O2, que poderia se valer de recursos muito mais interessantes e não tão normais e simplórios como os utilizados no disco. Afinal de contas, creio que tenha sido por isso que eles tenham sido contratados. O fato é que o nome “O2″ não condiz muito com a produção de vídeo que vemos neste DVD. Ficou ótimo, esclareço. Mas por ter a marca “O2″, o que se imaginava é que teria todo um viés cinematográfico, uma linguagem de videoclipe, o que não ocorreu.
Exaurida a análise a respeito da parte visual do DVD, podemos passar a análise da parte realmente fantástica deste disco: a musical. Claro, no entanto, que com as devidas ressalvas quanto às reais intenções do disco. O DVD “Sinfônico” é basicamente o registro do projeto que Chitãozinho & Xororó mantém há 2 anos de forma paralela e esporádica com o maestro João Carlos Martins e que já esteve inclusive em Barretos. O que, a rigor, não condiz muito com o objetivo do projeto. Afinal, se a idéia é finalizar a trilogia das homenagens aos 40 anos da dupla, o “correto” seria que somente as músicas da dupla fossem gravadas. E neste DVD, assim como nos shows que a dupla realizou nesse formato, entraram tanto músicas da dupla quanto algumas músicas clássicas, como a “Ave Maria”, de Schubbert, ou o “Largo Concerto Nº 5 Em Fá Menor“, de Bach, na versão com letra de Flávio Venturini intitulada “O Céu de Santo Amaro”, que no DVD ganhou a participação do Caetano Veloso, intérprete original da canção.
Seria interessante ver o Caetano cantando uma música da dupla Chitãozinho & Xororó, mas atendendo a um pedido do Maestro, acabaram gravando uma que o Caetano já tinha gravado em outra ocasião ao invés de uma da dupla. É inevitável pensar na voz do baiano em uma música como “Pensando em minha amada”, por exemplo, que acabou passando batida nas homenagens aos 40 anos da dupla. Outra chance, a meu ver, desperdiçada de ter um grande nome da MPB repaginando uma música da dupla foi com o Djavan. Ao invés de cantarem uma música da dupla Chitãozinho & Xororó, cantaram uma do repertório do próprio Djavan (“Sorri”), que gravou a participação em estúdio, já que um atraso num vôo impediu que ele participasse do show.
Tirando o Caetano e o Djavan, as outras participações cantaram músicas da dupla. Alexandre Pires cantou “Vez em quando vem me ver”. Uma sacada incrível, já que a música, que é fantástica, provavelmente passaria em branco na série de homenagens. Fafá de Belém e Jair Rodrigues reeditaram a parceria de antes cantando as mesmas músicas que já tinham gravado com a dupla anos atrás. A Fafá com “Nuvem de Lágrimas” e o Jair Rodrigues com “A Majestade o Sabiá”. Esta última música, aliás, foi a única que misturou um arranjo de viola caipira com o arranjo da Orquestra, o que cabia tranquilamente em outras canções, como “Fogão de Lenha”, gravada com a participação do Fábio Jr, mas que não foi utilizado.
Sobre as participações, voltamos de novo ao quesito “público-alvo”. Como eu disse parágrafos acima, este disco foi feito com a clara intenção de agradar um outro público, diferente do sertanejo. A participação da Maria Gadú, por exemplo, é só mais uma prova disso. Trata-se de uma jovem cantora, com dois ou três anos de mídia e uma vida inteira e carreira pela frente, mas que ainda não teve tempo de acrescentar muita coisa à história da música brasileira. Sua participação neste disco é unicamente midiática, para agradar este público não-sertanejo. Gravou com a dupla a canção “No Rancho Fundo”, cuja versão “original” da dupla o Caetano exaltou como um momento em que a cultura popular finalmente encontrou a cultura erudita de forma sublime.
Mas a participação mais interessante e bacana do DVD e da noite do show foi sem dúvida a da dupla Sandy & Junior, reeditando uma parceria encerrada há alguns anos. A versão da música “Se Deus me ouvisse”, com um arranjo bacanérrimo tocado no violão pelo Junior e com a Sandy no piano, além das 4 vozes no final, foi um dos pontos altos do DVD, quem diria. Uma pena a edição do vídeo não ter aproveitado a empolgação do Xororó com os filhos cantando. Parecia um menino no palco no dia do show, de tão feliz em ver novamente a Sandy e o Junior dividindo o palco.
Outra participação que no dia do show foi merecidamente ovacionada mas cuja edição final do DVD não valorizou tanto foi a do maestro Martinez, um dos maiores arranjadores da história da música sertaneja, que executou no trompete o arranjo da música “Tenho ciúme de tudo”, que acabou sendo o único bolero da dupla Chitãozinho & Xororó gravado durante as homenagens aos 40 anos.
Tirando as participações e as músicas do repertório não-sertanejo, a dupla Chitãozinho & Xororó soube escolher muito bem canções onde a interpretação seria um diferencial e tanto ou canções com alguma importância na carreira e no repertório da dupla. “A minha vida”, “Malageña Salerosa” e “Lágrimas” ficaram fantásticas com a voz do Xororó nas alturas e arranjos fenomenais da orquestra. “Inseparáveis”, apesar de não ser uma música tão impactante, é importante no sentido de representar uma das principais características da dupla: a união.
“Fio de Cabelo” e “Evidências” finalmente entraram no repertório de forma definitiva. No disco “Entre amigos”, a música “Fio de Cabelo” serviu apenas para matar a saudade do tempo dos AMIGOS. Nenhuma das duas músicas havia sido aproveitada da forma correta nos dois projetos anteriores. A dupla deve ter “segurado”, aliás, com a intenção de gravá-las no último projeto de forma mais simbólica. O que é estranho, afinal outras músicas foram gravadas novamente no disco “Sinfônico”, mesmo tendo entrado nos discos anteriores da trilogia.
O Daniel já tinha cantado “No Rancho Fundo”, Michel Teló já tinha cantado “Nuvem de Lágrimas”, César Menotti & Fabiano já tinham cantado “A minha vida”, o Edson já tinha cantado “Se Deus me ouvisse”. Tantas músicas ficaram de fora destas homenagens. Seria bem mais interessante se os trabalhos não repetissem músicas entre si. Assim, mais músicas seriam relembradas e a homenagem seria mais, digamos, completa. Algumas canções fantásticas e que ficaram de fora se tornariam eternas com arranjos executados pela orquestra. “Pensando em minha amada”, “É assim que te amo”, “Estrada” e “Sinônimos”, por exemplo, mereciam entrar neste último DVD.
Por falar em “Sinônimos”, é intrigante a pouca quantidade de participações neste disco, levando em conta os dois projetos anteriores. Se Jair Rodrigues e Fafá de Belém repetiram a parceria, o que impedia, por exemplo, que Zé Ramalho, Fagner, Ney Matogrosso e outros também o fizessem? Sem lembrar os artistas que ficaram de fora dos discos anteriores, como a Paula Fernandes, a dupla Chrystian & Ralf e o Marciano, autor da principal música da carreira da dupla e um “amigo” homenageado por eles até em um canção.
Feitas as devidas considerações, podemos falar de fato sobre a produção do disco, os arranjos, as harmonias. Mas… o que tem pra falar? Não sei de nenhuma ocasião onde o uso de uma orquestra tenha dado errado. Qualquer coisa fica melhor com orquestra. Qualquer coisa. Se fosse funk tocado com orquestra, ficaria excelente. Talvez, é claro, fosse mais interessante valorizar um pouco mais a música sertaneja com instrumentos como acordeon e viola em conjunto com a orquestra, mas eles quase não foram utilizados. Como eu disse, mais uma evidência de que o DVD não foi feito para um público sertanejo.
Como balanço final do projeto “40 anos”, dá pra enfim reclamar da ausência de algumas pessoas, como as mencionadas acima e de algumas músicas. Além das canções listadas acima, a parte “rodeio” da dupla não foi lembrada, com músicas como “Bailão de Peão”, “Na aba do meu chapéu” e outras. Dos boleros, somente a canção “Tenho ciúme de tudo” foi resgatada. Faltou, por exemplo, “Matriz ou filial”. As polcas que também marcaram a carreira da dupla, como “Loira gelada” e “Sorriso Mudo”, também foram esquecidas. Além de “Amor a três”, “Palavras”, “Feito eu”, “Ela chora, chora”, “Pais e filhos”, “Nossas roupas”, “Pago Dobrado”, “Fotografia”, enfim, uma série de canções históricas da dupla que passaram em branco nesta série de homenagens.
No mais, o DVD “Sinfônico” é, enquanto obra musical, definitivamente perfeito. Eu sei que reclamei do fato de ser um disco direcionado não ao público sertanejo, mas a quem precisa conhecer e respeitar o nosso segmento. Mas talvez seja isto que tenha feito deste disco uma obra na qual a música sertaneja chegou ao seu ponto máximo enquanto segmento musical. Nunca foi feito algo do tipo com a música sertaneja. E creio que ainda demore até que alguém ouse fazer algo ainda mais ousado ou pelo menos parecido. Perfeito, sem sombra de dúvida. Fiz tantas críticas no decorrer do texto justamente porque se fôssemos levar em conta apenas o disco em si, nenhum defeito precisaria ser apontado. É o segmento sertanejo e a dupla Chitãozinho & Xororó como eles merecem. Com respeito, ovação e entrega. Um disco sertanejo de música clássica, nao só no sentido literal.
Nota: 10





Mais uma vez um grande review…
notei a falta também do Ataíde e Alexandre no entre amigos, o Alexandre é autor de muitos sucessos da dupla!
Só meteu o pau, só desvalorizando a música sertaneja e os artistas que lutaram e lutam contra o preconceito com a música sertaneja.
Palhaçada!
Para gravar todas músicas de sucesso de Ch & X, só fazendo 40 DVDs. Sobre eles cantares músicas do Caetano e Djavan, penso que tenha sido escolha deles, pois eles já gravaram tantas músicas de outros gêneros, mostrando uma diversidade imcomparável, se esses novos cantores que se dizem sertanejos estão cravando funk, estragando o gênero, não vejo problema algum Ch & X gravarem clássicos da MPB
Como ele meteu o pau se ele deu nota 10?
Falar bem do CH&X é chover no molhado.
Faltaram sim participações e alguma canções chave, mas isso não quer dizer que o DVD seja ruim.
Má interpretação de texto é mato.
Ele foi divergente dando nota 10 para o DVD Ch & X sinfônico, depois de indicar tantos pontos que teriam faltado, pois no meu entender para um disco ser nota dez não se deve faltar nada. Mas para mim esse DVD foi realmente nota 10, um belo trabalho!
Apoiado!!!
Também discordo do autor do texto acima no ponto em que ele diz, que não foi um trabalho voltado para o sertanejo, todo trabalho de Ch & X sempre foi voltado para o sertanejo, este só é mais enriquecido do que os outros. As participações não descaracteriza o trabalho do gênero sertanejo, pois as figuras principais nasceram no berço sertanejo. Quem gosta de Ch & X, gosta de uma boa música sertaneja. Ch & X fazem a muito tempo aquilo que gostam sem se preocupar com os outros, e como gostam de sertanejo, fazem sertanejo.
Ch & X é Ch & X, muito feliz a ideia do DVD sinfônico, algo grandioso assim como a história de Ch & X na música sertaneja e brasileira, sobre o texto concordo com a nota 10, mas o autor podeira ter aproveitado o espaço melhor, falando dos pontos positivos do trabalho, não perdendo o tempo dizendo o que poderia ter entrado ou não no DVD. Concordo com o Romero em seu ponto de vista, um trabalho só pode levar 10 se não tiver faltado nada. Se o autor acha que poderia ter tido aquilo ou aquilo outro não deveria ter dado nota máxima realmente.
Sr. Marcus Vinícius:
Com esse review o Sr. provou que realmente conhece de música sertaneja* e especialmente da carreira da dupla em questão, provando que não é apenas mais um rostinho bonito na blogosfera! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!
Só porque o cara citou nomes de outros sucessos da dupla, brincadeira, isso não significa que alguém entenda realmente de música sertaneja.
Esse a nota foi 10 e os comentários não estão rolando !! Engraçado né… se fosse 8 choveria canivete.
A minha nota é 7 !!!
O que percebo acompanhando este e outros blogs sertanejos é um desdenho com a música sertaneja Romântica, postam 100 matérias sobre novos talentos, e muitos sem o porque, e quando postam uma matéria sobre os sertanejos românticos é isso que vejo, sempre encontram problemas, tentando sempre desvalorizar os artistas, só que eles estão aí sempre encarando os preconceitos, antes era dos outros gêneros hoje são dos sertanejos.
Gostei muito de sua crítica e acertadamente diz que esse DVD é direcionado para os que não curtem música sertaneja, meu caso! No entanto o DVD chamou minha atenção não só pelas músicas mas pelos convidados (com exceção do Fábio Júnior).
Grata surpresa, o trabalho é muito bom! No entanto, gostaria de saber se é possível acessar somente as músicas continuadamente, pois quando faço opção pelas músicas, é necessário clicar sobre cada uma…
Acabei de assistir ao DVD e concordo contigo. Com certeza a participação mais bela foi dos irmãos Sandy e Junior. Repeti varias vezes a mesma musica e me emocionei sempre.