Diário de um cantor sertanejo – por que é tão difícil cobrar um preço justo?
Quando uma dupla começa, é normal que passe os primeiros meses apenas dando “palhinhas”. Toda vez que os novatos tentam marcar uma apresentação, os donos das casas pedem pra conhecer o trabalho primeiro. E um CD não costuma servir de “demonstrativo”. Os caras querem ver ao vivo. Obviamente não dá pra levar uma estrutura grandiosa. No máximo, um violão e voz.
Acontece que, depois de um tempo, simplesmente não dá pra continuar só nas palhinhas, ou canjas. Cantar é, antes de tudo, um trabalho, e deve ser remunerado. Por incrível que pareça, alguns gerentes de casas de show tem a cara de pau tão deslavada que batem no peito com orgulho dizendo que Fulano ou Beltrano cantam pra eles de graça o tempo que eles quiserem. Algumas boates de Uberlândia chegam a exigir do cantor que, caso queira uma data exclusiva e remunerada, ele faça “participações” em outros shows realizados na casa. Algumas duplas chegam a cantar durante um ano e meio nesses locais sem receber um centavo. E quem disse que o gerente marca a porcaria da data? Só quando o cara consegue provar que é capaz de encher a casa, o gerente muda de postura. Foi assim com a gente: depois do show no Coliseu, com casa lotada, a gente passou a receber nas boates.
Como se não bastasse, cada dia que se passa está mais difícil cobrar um preço justo por um show. Entendam: para que um show seja bem realizado, são necessários aproximadamente 6 profissionais (além da dupla). 4 músicos, um produtor/holdie/faz-tudo e um técnico de som. O preço mínimo cobrado por um profissional free lancer é R$ 100,00. Alguns chegam a cobrar R$ 300,00 por uma noite tocando. Sendo assim, o preço a ser cobrado por um show teoricamente não pode ser inferior a R$ 800,00 (cem reais pra cada um incluindo a dupla), sem contar transporte, alimentação, estadia.
Acontece que, pelo menos aqui em Uberlândia, o mercado parece ter entrado num consenso geral: pagar de R$ 300,00 a R$ 500,00. Isso mesmo, nesse preço a dupla tem que se virar com banda e com os demais profissionais. No fim das contas, sobra no máximo uns R$ 60,00 pra cada um. Os caros leitores podem até pensar: ah, já tá bom. Nananinanão!!!
Saca só os preços das coisas que estão incluídas num show:
- 2 violões: R$ 1000,00 cada
- viola caipira: R$ 1000,00
- bateria: R$ 3000,00
- Baixo R$ 1000,00
- Guitarra: R$ 1000,00
- Acordeon: R$ 5000,00
- Encordoamento de cada instrumento: R$ 30,00 em média
- Microfones: R$ 200,00 cada
- Cabos: R$ 30,00 cada
- etc, etc e etc.
Olha que eu botei os preços de produtos que, ainda que tenham qualidade, são baratíssimos. Eu já disse em outro post que um acordeon chega a custar R$ 20000,00. Então me expliquem como cobrar tão barato por um show com custos tão altos de manutenção. Tem que tocar muito pra recuperar toda a grana. É praticamente uma continuidade da palhinha. De canja em canja, a gente acaba virando galinha
Semana que vem, mais uma história sobre o mesmo tema: o tempo em que a gente (junto) tocava e ficava cada um com R$ 10,00!!!






Muito boa essa reportagem,serve de alerta p/muitos cantores,por isso a tendencia é aparecer mais cantores solo.Gostei da colocaçao sobre as palhinhas, parabens ,